UMA VIDA A SERVIÇO DOS EMPOBRECIDOS

Baseado no texto de Ivo Poletto

Odair Firmino nasceu em Ipameri, Goiás, no dia 22 de junho de 1945, mas sua família mudou-se para Anápolis, Goiás, quando tinha apenas dois anos. A partir daí, conviveu com franciscanos e franciscanas. Completados os estudos de filosofia e teologia, tornou-se frei franciscano em 1972. Atuou nas paróquias de Pires do Rio e Jataí, seguindo depois para Anápolis, onde assumiu, em1975, adireção do Colégio São Francisco até 1982. Desde cedo, Odair foi atraído pelo exemplo de São Francisco de Assis, e foi um franciscano autêntico em toda sua vida. Decidiu deixar a congregação franciscana, casando-se com Dadiva Firmino e mudando sua residência para Brasília em 1984. Manteve-se como educador no Colégio Santo Antônio, mas já no início de janeiro deste ano ingressou na Cáritas Brasileira, como Assessor Técnico. E a Cáritas foi sua casa, seu engajamento, sua paixão pelo resto da vida, uma vez que, nela, foi subsecretário, secretário nacional e duas vezes vice-presidente, encerrando o segundo mandato apenas em dezembro de 2007.

Odair chorou muitas vezes diante das situações de abandono, exploração e exclusão em que se encontravam pessoas e comunidades que assumiu e amou como seu próximo. Percebendo que o sofrimento das pessoas tinha sua causa nas injustiças, nas estruturas de pecado da sociedade brasileira e do mundo capitalista, teve fome e sede de justiça.

Seu modo de vida, sempre alegre e cheio de esperança, nunca deixando que o diabetes o levasse ao medo de enfrentar o que a vida lhe apresentava, fez dele uma pessoa mansa, pura de coração e misericordiosa. Diante da violência que sempre atinge mais duramente os empobrecidos, e especialmente os negros, os jovens e as mulheres, Odair foi um promotor da paz verdadeira. No percurso de sua vida, foi perseguido e foi sempre solidário com as irmãs e irmãos perseguidos por causa da justiça. Tudo somado, Odair foi um discípulo fiel do Mestre Jesus, não se abalando com as incompreensões, injúrias e perseguições.

O que mais caracterizou São Francisco foi seu amor incondicional pelos pobres e pela natureza. Odair foi franciscano de modo especial pelo amor aos pobres. Não fez da Cáritas um emprego, mesmo tendo vivido a partir do trabalho nela durante muitos anos. A Cáritas lhe possibilitou viver sua paixão pela libertação integral das pessoas, tendo nos excluídos e excluídas os protagonistas principais. Isto é, possibilitou-lhe viver o ideal de São Francisco de forma atualizada.

Foi essa paixão também que o manteve firme e o fez sujeito ativo em todo o processo de redefinição da missão da Cáritas nos anos 90. É a década das Semanas Sociais Brasileiras, do nascimento do Grito dos Excluídos, da renovação da Campanha da Fraternidade; é o tempo do lançamento da Campanha pela Convivência com o Semi-Árido e da Articulação do Semi-Árido, com seu Projeto de 1 Milhão de Cisternas caseiras; é o tempo do Seminário Internacional e o do Tribunal sobre a Dívida Externa, que deu início ao trabalho da Rede Jubileu Sul, responsável, no Brasil, pelos Plebiscitos populares sobre a Dívida, em 2000, e sobre a ALÇA, em 2002; é o tempo das avaliações dos Pequenos Projetos Comunitários e da consolidação da Economia Popular Solidária… A Cáritas foi se firmando como uma das forças essenciais de todos esses processos, e o Odair, um dos seus principais animadores.

Seus últimos anos foram dedicados, ao mesmo tempo, à direção da Cáritas e à Universidade Estadual de Goiás, onde foi Vice-Reitor Acadêmico e Secretário Geral. Dedicou-se com entusiasmo à formação de professores/as em todo o interior de Goiás e envolveu os educadores em processos de alfabetização. Sentia-se feliz colaborando para consolidar espaços de formação universitária que criavam oportunidades para pessoas que não teriam como deslocar-se à capital. E fazia o possível para que professores e alunos se ligassem com a realidade social, política, econômica e cultural das localidades, comprometendo-se com o enfrentamento das causas dos problemas que provocam o empobrecimento e a exclusão de tantas pessoas.

Foi sempre, mesmo na universidade, um educador aprendente, como deve ser todo discípulo de Jesus, de São Francisco e de Paulo Freire. Estava sempre aberto ao novo, às possibilidades de ação libertadora presentes nas contradições históricas. E com a qualidade já destacada acima: o espírito jovial, alegre, esperançoso, capaz de relativizar as dificuldades, capaz, por isso, de ajudar a abrir novas veredas.

Odair Firmino faleceu no dia 5 de julho de 2008.