Cáritas Brasileira promove fortalecimento e protagonismo de comunidades que resistem ao atual modelo de produção e têm concepções de vida pautadas no desenvolvimento solidário e sustentável

A Semana de Solidariedade ocorre todos os anos, de 5 a 12 de novembro, na Rede Cáritas Brasileira, por meio de diferentes iniciativas que se materializam em comunidades, paróquias, dioceses e regionais. Animados pela frase de Dom Helder Câmara, “a maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”, a Cáritas resgatou sua gênese e celebrou, em 2010, seus 54 anos de contribuição e de incidência na formação de uma cultura de solidariedade em prol das pessoas que vivem em situação de exclusão social no país.

Durante a semana de comemorações são desenvolvidas diversas atividadesem todo Brasilcomo Feiras de Economia Popular Solidária, Formaçãoem Economia Solidária, Bazar Solidário, Apresentações Culturais e Reflexões, partindo da realidade de cada comunidade. Sempre com a proposta de antecipar o tema do ano seguinte da Campanha da Fraternidade, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Semana de Solidariedade 2010 teve como tema “As questões climáticas e a vida no planeta”.

Ao longo das últimas décadas, a sociedade vem amadurecendo sua consciência a respeito da atual situação do meio ambiente e as ameaças que o planeta e populações inteiras vêm sofrendo devido ao modelo de desenvolvimento adotado hoje mundialmente. No entanto, em contraposição a esse modelo pautado no consumismo exacerbado aliado ao contraditório desenvolvimento degradador, muitas experiências de resistência e mudança vêm se multiplicando em todo mundo, principalmente em pequenas comunidades que criam e recriam vida. Estas experiências têm demonstrado uma visão alternativa de uma sociedade que busca construir um modelo de vida que tenha como base a solidariedade para o desenvolvimento sustentável.

A Semana da Solidariedade em 2010 trouxe a campanha: Qual o nosso olhar? Com o tema voltado para as questões climáticas e a atual situação da vida do planeta, a atividade convidou a sociedade a voltar seu olhar para as ações de compromisso com os mais carentes, reafirmando assim a identidade dos agentes Cáritas no desenvolvimento de uma sociedade mais justa, igualitária e plural.

Em2010, a Semana da Solidariedade ainda contou com uma motivação a mais. O Prêmio Odair Firmino foi uma inovação que, além de prestar uma merecida homenagem póstuma a uma importante personalidade da Rede Cáritas, premiou experiências de organizações, entidades e grupos comunitários de abrangência local fomentadores da cultura da solidariedade que, sobretudo, dialogaram com a temática proposta.

Para o teólogo, biblista e escritor, Marcelo Barros, que fez parte da cerimônia de entrega do Prêmio Odair Firmino no dia 25 de novembro de 2010 em Brasília, a bandeira central da Cáritas Brasileira sempre foi a solidariedade. “O que seria do amor, da caridade se não fosse a solidariedade efetiva?” Ainda como sinônimo de esmola, segundo Barros, a entidade foi capaz de ir além. “A Cáritas conseguiu outro patamar de solidariedade. Ela atingiu uma solidariedade efetiva, coletiva, estrutural e transformadora, na qual os pobres são protagonistas e deixam de ser vistos apenas como indivíduos que precisam ser ajudados. Não existem pobres, existem pessoas empobrecidas pelo atual modelo de desenvolvimento.”

Marcelo Barros ainda disse que discutir a solidariedade no mundo de hoje, em uma sociedade competitiva e individualista, é de extrema importância, “pois não estamos falando apenas da solidariedade como forma de atividades ou formas isoladas, mas estamos tratando da solidariedade como princípio de vida, como um modo e um jeito de viver.”

Neste sentido, para o teólogo, solidariedade é vida, ela não é algo a mais, ela é o próprio princípio da vida. “A gente nem percebe a solidariedade que nos liga uns aos outros. É uma comunhão que faz com que a gente faça parte um do outro, não apenas entre nós, seres humanos, mas uma comunhão entre todos os seres vivos. Desta forma, é claro que cuidar da vida planeta é uma tarefa fundamentalmente espiritual e solidária”, ressaltou.

Mudanças climáticas – “As mudanças climáticas são um problema global e requerem uma resposta global. As crises ambientais, financeiras e sociais decorrentes dessas mudanças climáticas não são isoladas da contínua perda da biodiversidade e degradação dos ecossistemas.” A fala é do professor da Universidade de Brasília, João Nildo de Sousa Vianna, que destacou as influências que atual o modo de produção tem sobre o clima.

De acordo com ele, existem dois cenários para o Brasil e para as comunidades internacionais. O primeiro é que se não houver mudanças de hábitos como as altas emissões de poluentes na atmosfera, em2100 atemperatura média no Brasil vai subir 6ºC. Porém, se medidas forem adotadas para a redução drástica destas emissões, no mesmo período de 90 anos, a temperatura subirá 1,5ºC.

Este aumento da temperatura trará conseqüências que irão refletir em prejuízos para o meio ambiente, a saúde e a economia. “A previsão que temos é que com a diminuição das chuvas, em torno de 60% no nordeste, por exemplo, e o aumento na frequência de dias secos consecutivos, toda a Caatinga irá desaparecer”, alertou.

Por isso, por meio do tema da Campanha da Fraternidade2011, aCáritas Brasileira convidou a sociedade brasileira a discutir e a refletir sobre o que vem ocorrendo com o planeta Terra e, ao mesmo tempo, evidenciou as experiências promotoras de outras concepções de vida que tem no desenvolvimento solidário e sustentável a saída atual para um mundo melhor.